Não adoro, mas também não evito nem me importo. Gosto de ir a cervejarias e a sítios típicos e, havendo essa hipótese, fico ao balcão. Foi o que fiz hoje e, o habitual, só homens lá sentados. Quando os olhares se tornam insuportáveis pego no telemóvel e finjo que estou a fazer qualquer coisa, se alguém telefona é a alegria.
Diverte-me a dúvida inicial dos empregados em vir logo anotar o meu pedido ou esperar para ver se tenho companhia. Quando peço uma imperial quebra-se logo o gelo. Hoje não, fui ignorada porque estava no Porto e lá as coisas têm outros nomes. Emendei a gaffe imediatamente e pedi um fino. Logo o sorriso cúmplice do empregado.
Nessa altura, sentou-se à minha frente, bem, mais ou menos porque o bacão era em forma de U, sentou-se na direcção do meu olhar o Galã. A sorrir e a fazer olhinhos. Estava só à espera de quando é que sacava do pente e compunha a brilhantina ali mesmo.
Quinze minutos depois de uma brilhante exibição de macho latino, que passou por falar em voz alta, palitar os dentes e soltar arrotos sonoros, não pude ignorar mais. Ponderei entre fazer as minhas habituais trombas, acompanhadas de sopros e expressivo revirar de olhos ou, atitude mais sensata, continuar a ignorar.
Foi então que decidi inovar: olhei o animal nos olhos e comecei a comer inteiros os pedaços de melão, sim, aturei o número até à sobremesa. Já com as lágrimas nos olhos com a vontade de rir, quase não via o efeito no meu alvo e assim era também a concentração para não me engasgar. Só foram precisos três nacos de melão: o outro ficou vermelho até às orelhas, pediu a conta e saiu. Nem café tomou!
Vale a pena acrescentar que todos os outros meus companheiros de balcão se aperceberam da cena e estavam a ponto de me aplaudir quando afugentei a personagem.