Desta vez não fui outra vez a Istambul para ter uma experiência do além nestas salinhas traiçoeiras, como tanta coisa que une humidade, escuridão e calor nesta vida.
Eu sou uma pessoa que vê mal no escuro. E ardem-me os olhos - assim como o nariz mas para o caso não conta - por causa da essência de eucalipto.
Portanto entrei de olhos fechados. Vou para me sentar ainda à luta com a escuridão e a dificuldade em respirar e sinto algo parecido com uma mão, mas que também podia ser um molusco vivo e molhado, tap tap na minha perna.
...
Ia sentar-me ao colo dum velho.
sábado, 10 de abril de 2010
Primeiras impressões sobre o Yoga
Pronuncia-se iôôga. Mas isso eu já sabia.
Correndo o risco de denunciar o amadorismo em ambos os desportos acho que o Yoga é como o Amor.
Primeiro parece fácil: acerta-se a respiração, estica-se um bracinho pra lá uma perninha para cá. A coisa vai bem, continua-se com uns joguinhos de equilíbrio só numa perna, depois na outra. Agora de gatas numa perna e numa mão, troca de perna e mão, etc. Depois começa a avançar e já se mistura pernas, braços, tronco, tudo sempre sem esquecer a respiração e, quando dás por ela, estás com uma perna às costas e não no bom sentido. Aí começa a doer, mas já nem sabes bem onde tudo começou nem como desatar o nó colossal que tens no corpo.
No dia seguinte doem-te músculos que nem sabias que existiam.
É isto e diz que é zen.
Correndo o risco de denunciar o amadorismo em ambos os desportos acho que o Yoga é como o Amor.
Primeiro parece fácil: acerta-se a respiração, estica-se um bracinho pra lá uma perninha para cá. A coisa vai bem, continua-se com uns joguinhos de equilíbrio só numa perna, depois na outra. Agora de gatas numa perna e numa mão, troca de perna e mão, etc. Depois começa a avançar e já se mistura pernas, braços, tronco, tudo sempre sem esquecer a respiração e, quando dás por ela, estás com uma perna às costas e não no bom sentido. Aí começa a doer, mas já nem sabes bem onde tudo começou nem como desatar o nó colossal que tens no corpo.
No dia seguinte doem-te músculos que nem sabias que existiam.
É isto e diz que é zen.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Toda uma nova desgraça

Descobri agora e é a mais recente razão da minha batalha inglória contra estes cinco quilos extra que se apoderaram do meu corpinho desde o verão passado.
Resolvi partilhar na esperança que fiquem tão viciadas como eu. Talvez assim não seja a única orca este ano a rebolar nas areias do nosso querido Portugal.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O inferno são os outros

Ainda gostava de saber o que fazem velhinhos de 70 anos e mais às 9h da manhã no meio da rua com este frio.
Aliás, eu sei, porque quando já eram três exemplares conversavam muito sobre como não conseguem manter-se em casa.
Eu comecei sozinha na paragem de metro - de superfície, em Almada é assim ao ar livre, uma riqueza - e primeiro chegaram dois senhores, muito encolhidos. Talvez em busca de calor humano, mas a minha aposta seria para pura falta de noção, um deles ficou de pé exactamente à minha frente. E quando pensava que a possibilidade de lhe contar os floquinhos de caspa no casaco eram já o expoente máximo da proximidade possível e aceitável entre dois estranhos no meio da rua, o velho consegue pisar-me.
Senhores, eu calço o 36 e não estou a ocupar assim tanto espaço.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
O Desenraizamento
Fui chamada de assistência, quatro dia fora de casa, e comecei a chorar. Quem me ligou falava como se me estivesse a convidar para uma festa: quem me dera esganá-lo. Amaldiçoei quem quer que tivesse faltado.
Numa semana dormi quatro noites em casa. Num mês devo andar por aqui cerca de 60 por cento dos dias. Ou talvez esteja a exagerar.
A verdade é que estas contas pesam-me. Faz-me falta vir dormir a casa.
As pessoas desabituam-se de mim e eu delas. Faz-me impressão que os meus pais já não me liguem ao fim-de-semana a perguntar se vou almoçar.
Éramos só mulheres, dez, a trabalhar e parecíamos as melhores amigas na carrinha a falar de cinema e a rir muito. Assim que chegamos e nos misturamos com a vida real desaparece tudo e já nem nos lembramos de quem eram. Nem onde fomos.
Chego a casa e já me passou a neura. As saudades em vez de aumentarem atenuam. Quase desaparecem. Tudo toma uma importância relativa, uma vez que daqui a nada já me vou embora outra vez.
Numa semana dormi quatro noites em casa. Num mês devo andar por aqui cerca de 60 por cento dos dias. Ou talvez esteja a exagerar.
A verdade é que estas contas pesam-me. Faz-me falta vir dormir a casa.
As pessoas desabituam-se de mim e eu delas. Faz-me impressão que os meus pais já não me liguem ao fim-de-semana a perguntar se vou almoçar.
Éramos só mulheres, dez, a trabalhar e parecíamos as melhores amigas na carrinha a falar de cinema e a rir muito. Assim que chegamos e nos misturamos com a vida real desaparece tudo e já nem nos lembramos de quem eram. Nem onde fomos.
Chego a casa e já me passou a neura. As saudades em vez de aumentarem atenuam. Quase desaparecem. Tudo toma uma importância relativa, uma vez que daqui a nada já me vou embora outra vez.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Exercício de imaginação
Imaginem-se com dez anos. Lembram-se? Aquela passagem para a escola preparatória, mudar de amigos, a novidade dos muitos livros e disciplinas, o medo de se perderem na escola tão grande e com tanta gente.
Agora imaginem que a vossa mãe adoece. É grave e degenerativo, pelo que a partir daí só a vêem piorar. Ano após ano, a vida toda em volta daquela que era a alegria da casa murcha, apodrece, deteriora-se.
Vocês têm agora quinze anos e uma das vossas rotinas é ir ao quarto de onde a vossa mãe já não sai para se certificarem que ainda está a respirar. Não está. Morreu e vocês estão sozinhos em casa com o vosso irmão mais novo.
A partir daí há um alívio pelo fim do sofrimento de um dos pilares da vossa vida. E há a perda. Queríamos que ela ficasse connosco, mesmo doente, podia ser que ainda houvesse outra cura, outro tratamento que resultasse. Quem é que nos vai agora ensinar a ser mulher, interceder pelos nossos namoricos, pegar ao colo?
Vocês sentem-se na obrigação de crescer ainda mais, de tomar conta da casa e da família que vos resta.
O pai encontra uma namorada, o conflito é permanente. Vocês não aceitam outra mulher.
Três anos depois de terem perdido a vossa mãe, os dezoito anos acabados de fazer, o vosso pai desesperado, louco, perde a cabeça e mata a namorada. Acontece tudo em frente à vossa casa. Logo a seguir, o pesadelo continua e o vosso pai tenta suicidar-se.
Está montado o circo de pessoas curiosas e comunicação social. Mesmo à porta da vossa casa.
No dia seguinte tentam alguma normalidade e vão à escola. Está à porta a senhora Serenella Andrade - para só mencionar uma e a que me pareceu a situação mais ridícula - à espera para falar "com a família da vítima" e de caminho, se possível, alimentar mais um pouco esse animal sedento de sangue que é o público.
Para onde quer que se virem há comentários sobre o caso, informações cruzadas, mentiras, imprecisões e isso tudo magoa, revolta e prolonga o sofrimento de toda a gente envolvida. Há uma foto que foi publicada, saiu sabe-se lá de onde. É o nosso pai feliz e de férias quando o vemos agora no hospital e com a cara desfeita pela munição que (não?) cumpriu o propósito. A impotência de haver estranhos a mexer nas nossas memórias, a perda do direito à privacidade.
Felizmente vivemos num país onde de tão raras, estas notícias conseguem alimentar as notícias durante vários dias.
Fazendo o simples exercício de nos colocarmos no lugar destas pessoas, mesmo não sabendo toda a extensão da estória, será que é pelo preço justo que vasculhamos as suas vidas?
Agora imaginem que a vossa mãe adoece. É grave e degenerativo, pelo que a partir daí só a vêem piorar. Ano após ano, a vida toda em volta daquela que era a alegria da casa murcha, apodrece, deteriora-se.
Vocês têm agora quinze anos e uma das vossas rotinas é ir ao quarto de onde a vossa mãe já não sai para se certificarem que ainda está a respirar. Não está. Morreu e vocês estão sozinhos em casa com o vosso irmão mais novo.
A partir daí há um alívio pelo fim do sofrimento de um dos pilares da vossa vida. E há a perda. Queríamos que ela ficasse connosco, mesmo doente, podia ser que ainda houvesse outra cura, outro tratamento que resultasse. Quem é que nos vai agora ensinar a ser mulher, interceder pelos nossos namoricos, pegar ao colo?
Vocês sentem-se na obrigação de crescer ainda mais, de tomar conta da casa e da família que vos resta.
O pai encontra uma namorada, o conflito é permanente. Vocês não aceitam outra mulher.
Três anos depois de terem perdido a vossa mãe, os dezoito anos acabados de fazer, o vosso pai desesperado, louco, perde a cabeça e mata a namorada. Acontece tudo em frente à vossa casa. Logo a seguir, o pesadelo continua e o vosso pai tenta suicidar-se.
Está montado o circo de pessoas curiosas e comunicação social. Mesmo à porta da vossa casa.
No dia seguinte tentam alguma normalidade e vão à escola. Está à porta a senhora Serenella Andrade - para só mencionar uma e a que me pareceu a situação mais ridícula - à espera para falar "com a família da vítima" e de caminho, se possível, alimentar mais um pouco esse animal sedento de sangue que é o público.
Para onde quer que se virem há comentários sobre o caso, informações cruzadas, mentiras, imprecisões e isso tudo magoa, revolta e prolonga o sofrimento de toda a gente envolvida. Há uma foto que foi publicada, saiu sabe-se lá de onde. É o nosso pai feliz e de férias quando o vemos agora no hospital e com a cara desfeita pela munição que (não?) cumpriu o propósito. A impotência de haver estranhos a mexer nas nossas memórias, a perda do direito à privacidade.
Felizmente vivemos num país onde de tão raras, estas notícias conseguem alimentar as notícias durante vários dias.
Fazendo o simples exercício de nos colocarmos no lugar destas pessoas, mesmo não sabendo toda a extensão da estória, será que é pelo preço justo que vasculhamos as suas vidas?
domingo, 24 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Healing Process
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
A Grã Cruz da Ordem de Cristo e a regra.
Então mas afinal uma distinção obedece a uma regra? E assim sendo qual é o mérito?
Só sei que se tivesse uma dessas hoje deitava-a fora. Passou a insulto.
Só sei que se tivesse uma dessas hoje deitava-a fora. Passou a insulto.
Admiro a autoconfiança do senhor, que estava hoje às oito da manhã à espera do médico dentro de um impermeável branquinho com o rato Mickey, que lhe permite não só sair de casa numa indumentária destas como chamar toda a atenção a si mesmo gritando em grosso vozeirão - Há pessoas à espera! - quando uma desgraçada acabada de chegar se aproxima e faz o teste das portas fechadas.
Aquele grito teria sido muito intimidador não fosse o kispo branco com o rato Mickey.
Aquele grito teria sido muito intimidador não fosse o kispo branco com o rato Mickey.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Coisas estúpidas que me acontecem VII
Estaciono o carro ao pé duma obra e preparo logo os ouvidos. Não seria a carga de água do momento que iria impedir aquela fauna de se manifestar.
Saio do carro, tiro o meu saco-troley para ir às compras e começam logo os risinhos e comentários abafados pelo som do temporal e do meu cérebro a gritar "Cabrões."
Para cúmulo, pensei eu, ainda tiveram o descaramento de vir atrás de mim, chamar-me "olhe! olhe!" e eu muito empertigada sem olhar, por isso: toque no braço.
Ao que me viro e rosno: "O que é que foi?!"
"Desculpe, mas é que deixou cair um sapato."
O meu carro é o cemitério dos sapatos canibais que já me deixaram os pés em sangue e mesmo assim não consigo deitá-los fora. Lá estava uma sandália, linda, toda ensopada. Também ela a rir-se da minha cara tacho, a mula.
Saio do carro, tiro o meu saco-troley para ir às compras e começam logo os risinhos e comentários abafados pelo som do temporal e do meu cérebro a gritar "Cabrões."
Para cúmulo, pensei eu, ainda tiveram o descaramento de vir atrás de mim, chamar-me "olhe! olhe!" e eu muito empertigada sem olhar, por isso: toque no braço.
Ao que me viro e rosno: "O que é que foi?!"
"Desculpe, mas é que deixou cair um sapato."
O meu carro é o cemitério dos sapatos canibais que já me deixaram os pés em sangue e mesmo assim não consigo deitá-los fora. Lá estava uma sandália, linda, toda ensopada. Também ela a rir-se da minha cara tacho, a mula.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Feliz Natal
A quem não consegui falar, mas sei que me lê;
A quem não tenho o número, mas sei que me lê;
A quem não me quer ver nem ouvir, mas sei que me lê;
A quem não conheço, mas sei que me lê;
A Todos.
A quem não tenho o número, mas sei que me lê;
A quem não me quer ver nem ouvir, mas sei que me lê;
A quem não conheço, mas sei que me lê;
A Todos.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Pergunto-me
Que regra de etiqueta seguir quando um cão - aconteceu-me hoje na loja de floricultura - nos vem alegremente cumprimentar e segue directo para uma snifadela doentia e prolongada às nossas cuecas?
Eu optei por uma murraça na cabeça, mas desconfio que o procedimento não agradou aos donos.
Eu optei por uma murraça na cabeça, mas desconfio que o procedimento não agradou aos donos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Posso dar-lhe também?

Podia estar aqui sentada a falar-vos do facto da minha palmeira doméstica regurgitar lagartas pretas que dão saltos de vários centímetros em piruetas no ar se as tento apanhar; de estar neste momento atrasada para o meu dentista gay depois de a megera da mulher dele me ter recusado consulta durante dois dias - gosto mesmo, mesmo do dentista por isso espero o que for preciso - apesar de ter ligado a queixar-me de dores num dente partido (castanhas piladas quase valem a pena a boca toda feita em cacos); de ter ficado contente com um inesperado e inédito convite para a passagem de ano, convite esse, que ora já não me apetece aceitar, ora tenho vontade de ir, numa esquizofrenia concordante com a relação; de ter demorado quatro horas para fazer a meia dúzia de exames da Medicina de Trabalho por ser véspera de feriado; de estar num canto, na sala de espera, a satisfazer o meu novo vício - mahjong café - e ouvir as minhas colegas, sempre tão incomodadas com multidões e gritos que não os delas próprias está visto, a conversarem aos berros sobre os novos horários, os feriados em que trabalham, as férias que fizeram; podia divagar sobre esse prazer que desenvolvi na má criação de não responder a um sorriso: uma das que estava aos gritos e a desprezar a minha presença segundos antes, ao ver-se sozinha e sem me conhecer de lado nenhum dirige-me um rasgado e simpático sorriso com a pergunta "então e diz-me lá tu como é que está o longo?" (jargão para o ambiente/quantidade de trabalho nos vôos de longo curso) ao que respondo sem sorrir: "bem, obrigada" e volto ao meu mahjong.
Mas o que quero mesmo hoje contar é sobre uma mãe que andava atrás da sua filhinha, vestida e penteada à anjinho barroco, com gomos de tangerina. Andava pelas salas todas de consulta onde o anjinho barroco entrava alegremente a implorar para que engolisse os gomos da tangerina. E a criança lá ia, entre gritos e cambalhotas pelo chão, comendo a tangerina. Quando acabou o suplício, nunca pensei contar com sofrimento qual poderia ser a média de gomos numa tangerina, para meu espanto a mãezinha tinha OUTRA tangerina, que saca da mala já descascada, com cara de sofrimento e prepara-se para recomeçar o número. O anjinho barroco, espantado que ficou também, levantou a pequena e sapuda mãozinha e SPLAC! presenteou todos os presentes com um valente chapadão nas trombas da mãe que, impávida disse aos espectadores: "ela hoje está muito nervosa".
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